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A vida depois de… reencontrar a filha perdida há sete anos

Site: www.metropoles.com
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Por: Bruna Subarense | Site: Metropoles

O último contato de Davidson da Silva Araújo, 45 anos, com a filha Ana Flávia foi quando a menina tinha 8 meses. Depois disso, a mãe da criança mudou de endereço e os dois perderam o contato completamente. Por aquelas coincidências que a vida proporciona, sete anos depois, em uma visita ao dentista, Davidson reconheceu a filha na sala de espera.

O que poderia ser enredo de mais uma novela das nove, aconteceu bem aqui pertinho de Brasília, na Cidade Ocidental (GO) a 48 km da capital. A história do próprio Davidson não é fácil. Usuário de drogas desde os 16 anos, há um mês ele concluiu o tratamento de reabilitação. Quem o escuta conversar acha curioso que um homem que fala tanto em Deus não tenha religião.

Nascido em São Luiz (MA), vem de uma família com 23 irmãos. O primeiro contato com as drogas foi experimentando maconha. Na época, um dos irmãos fumava e por admirá-lo muito queria fazer tudo igual a ele. “A doença que a gente tem, só sabe quem já passou. A adicção é a doença de ser dependente do álcool ou das drogas, mesmo vendo os malefícios que elas causam”, explica.

Eu me envolvi nas drogas aos 16 anos de idade. Depois de um tempo conheci a cocaína, o álcool, depois de mais um tempo eu conheci o crack, que foi a minha derrota, minha tristeza, minha perda de identidade. Eu tive muita perda na minha vida, hoje me arrependo muito e se pudesse voltar ao passado faria o certo. Tenho ódio das drogas. Mas, graças a Deus eu tive força de vontade de procurar uma clínica que é a Salve a Si, um lugar abençoado, diz Davidson emocionado.

Aos 21 anos, morou no Mato Grosso do Sul, teve uma esposa e dessa relação nasceu seu filho mais velho, Diogo, 21 anos. O menino mora em São Paulo, mas eles mantêm uma boa relação e só pararam de se falar quando Davidson deu entrada no Salve a Si – Centro de Tratamento para Dependência Química, onde telefonemas são proibidos.

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Foto: Daniel Ferreira/ Metrópoles

Voltou para Brasília, trabalhou como soldador e depois foi funcionário em um frigorífico por 10 anos. Casou-se pela segunda vez. A esposa era muito religiosa e alertava Davidson sobre os malefícios que a droga estava fazendo em sua vida. Os dois brigavam muito por conta do assunto. “Eu saia com raiva de casa e ia usar mais. Ela queria o meu bem, me ajudou, me avisou tanto, mas eu estava dormente, não escutava, estava cego pela droga”, relembra.

Um dos irmãos tinha um restaurante no centro da cidade e convidou Davidson para trabalhar de garçom e ajudante de cozinha. Nessa época, anunciaram uma vaga e foi aí que ele conheceu a mãe da sua filha. O relacionamento durou só três meses

Mesmo quando ela saiu do restaurante a gente manteve o contato. Eu ia na casa dela, conheci a família. Nós já tínhamos terminado quando minha filha nasceu. Mas eu fiz questão de registrar e até escolhi o nome: Ana Flávia.  Ana é o nome da avó materna e eu tenho um sobrinho chamado Flávio e achava o nome bonito. Davidson da Silva Araújo

Na última vez que viu a filha ela tinha oito meses. Depois disso, Davidson mudou para Luziânia. Tempos depois, quando foi na casa da ex-namorada, descobriu ela também havia se mudado. Tentou ter informações da menina, mas não conseguiu saber o novo endereço da família.

Assim passaram-se os anos. Em 2015, ele perdeu o emprego, a esposa — que tinha perdoado e aceitado a filha fora do casamento — desistiu de tentar ajudá-lo, os irmãos lavaram as mãos e deram o caso de Davidson como perdido. Sem amigos, com os pais já falecidos, ele não tinha nada e ninguém. Perdeu tudo.

Quando chegou ao fundo do poço resolveu por livre e espontânea vontade procurar ajuda. Foi ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPs) de Luziânia atrás de uma solução para o problema com drogas. “Uma senhora me atendeu e perguntou se eu realmente queria mudar e eu disse que sim. Foi então que me encaminharam para a Salve a Si. Caí de cabeça, aceitei minha recuperação, cansei da vida que eu estava levando”, conta.

Davidson pensava muito nas pessoas que havia magoado. Ainda ama a esposa que o deixou quando estava afundado nas drogas, mas entende completamente seus motivos e dá razão à ela. Diz que agora, recuperado, vai fazer tudo para tê-la de volta. “Quero me reparar, amo demais minha ex-mulher”, assume.

Quem mais aparecia em seus pensamentos era a filha, que nunca desistiu de procurar. Ele diz que agora tem sentimentos e se antes ria das besteiras que fazia, agora chora quando lembra delas.

O reencontro 
Toda quinta-feira os internos do Centro de Tratamento podem consultar um dentista. Em março, Davidson estava com muita dor de dente e precisou ser levado para atendimento.

Um dia antes da consulta, ele pediu para um amigo procurar o nome da ex-namorada e da filha na internet. O colega lamentou não ter encontrado nada. “Não teve como e resolvi que ia deixar Deus agir. Fui limpar meu armário e encontrei uma Bíblia que a mãe dela tinha me dado com o nome das duas. Pensei: agora que estou em recuperação, Deus vai me ajudar. Fiquei tranquilo, com uma sensação que tudo ia dar certo”, revela Davidson.

Na quinta, ao chegar no posto de saúde encontrou uma sala de espera cheia. Esbarrou em uma senhora, que acabou sentando ao seu lado.

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Foto: Daniel Ferreira/ Metrópoles

Achei a fisionomia dela familiar, não sabia de onde poderia conhecer, mas senti alguma coisa. Ela estava conversando com outra senhora e tinha uma garotinha brincando com um carrinho de colégio. Tive a impressão de conhecer a menina também. Logo em seguida a senhora falou com ela: ‘Ana Flávia, não fica correndo aí não que você vai machucar as crianças’. Naquela hora eu desmontei, porque era minha filha, que eu estava procurando há muito tempo. Davidson Araújo

Chorando, ele abraçou a senhora e perguntou se ela sabia quem ele era. Assustada, ela disse que não. Davidson perguntou de novo, olhando bem no rosto da mulher, que o reconheceu. “Ainda estava sem acreditar, sem saber se era, mas ela começou a falar dos meus irmãos, que não tinham notícia de mim. A menina ouviu a conversa e veio correndo e me deu um abraço tão forte, nunca tinha recebido um assim. Senti uma dor na espinha, achei que ela fosse me derrubar. A gente começou a chorar, aquele olhão dela, grandão”, relembra com água nos olhos.

A família da ex-namorada estava procurando Davidson na internet, delegacias e até no IML. O mais inacreditável é que elas moram bem perto da clínica de reabilitação, na Cidade Ocidental. “Aconteceu esse milagre na minha vida. O mundo é tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno. Olha onde eu fui encontrar a minha filha”, diz abrindo um sorriso.

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Foto: Daniel Ferreira/ Metrópoles

Os dois tiveram pouco tempo juntos. Mas, foi o suficiente para Davidson perceber que a menina parece com ele: cabelos lisos, pele e olhos mais claros. Pegou o endereço e a primeira visita para matar a saudade aconteceria alguns dias após esta entrevista, em seu dia de “folga”.

“Desde que a encontrei, 100% da minha vida já melhorou e vai melhorar mais ainda. Ela disse que me procurava, que chorava por mim. Flávinha não parava de me olhar, o carinho que ela tem por mim dói. Vou estar com ela pelo resto da minha vida e nunca vou decepcioná-la.

O tratamento de Davidson já acabou há um mês, mas, por não ter família, casa ou emprego, ainda não saiu da clínica. Fala com amor e gratidão do lugar que, segundo ele, salvou a sua vida. E sabe que precisa dar a vaga à alguém que precise do mesmo tratamento que recebeu.

Para o futuro ele pensa grande. Quer voltar a estudar, está em busca de uma oportunidade de emprego, diz que aprende rápido e aceita qualquer vaga. Quer conseguir todas as coisas que não conseguiu na vida e garantir um final feliz para essa história.

Eu já terminei meu tratamento, tive um bom êxito e quero um serviço, preciso demais. O que aparecer eu to pegando, preciso dar um conforto pra minha filha. Tudo que não pude dar antes, hoje eu quero dar. Aquele abraço que ela me deu, não esquecerei nunca. Vou fazer de tudo pra ela ter um futuro melhor. Vou lutar pra ver ela crescer, me dar uns netos e futuramente mostrar que existe recuperação quando a pessoa quer. A vida é boa, é bela quando se tem uma baixotinha pra amar e ser amado. Deus me deu ela de volta, desabafa.

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