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Neto de ex-ministro deixa as drogas e monta clínica de recuperação

Fonte: Gustavo Frasão, do R7
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Ele decidiu deixar o tráfico e o vício para não perder a mulher e a filha

Gustavo Frasão, do R7

A vida de José Henrique da França, de 38 anos, poderia virar roteiro de filme. Neto de um ex-deputado federal e ex-ministro do Tribunal de Contas do DF e filho de um renomado arquiteto de Capital federal, o brasiliense entrou para o crime levado pelo vício. Traficante, chegou a faturar milhares de euros. Mas, após se preso em Paris, conseguiu vencer a batalha contra as drogas e hoje se dedica a tratar dependentes na clínica que montou e administra na Cidade Ocidental (GO), região do Entorno do DF.

A luta, no entanto, não foi fácil. O vício durou quase três décadas e durante o tratamento José Henrique chegou a tentar suicídio mais de uma vez.

Na infância, França viu o pai ajudar a construir Brasília nas décadas de 50 e 60 e trabalhar diretamente com o arquiteto Oscar Niemeyer, morto em dezembro do ano passado. Os avós eram amigos pessoais do ex-presidente Juscelino Kubitschek e a família por parte de mãe dona de uma grande empresa no setor petrolífero, possuindo até hoje dezenas de postos de combustíveis espalhados por todo o Distrito Federal.

A família estruturada, no entanto, não impediu que José Henrique escolhesse o caminho das drogas. Ele disse que sempre teve uma pré-disposição muito forte para a dependência química.

Caçula de três irmãos, todos homens, descobriu o que é ficar embriagado aos 11 anos de idade tomando um remédio para abrir apetite.

— Naquela época este remédio tinha álcool e ninguém gostava. Meus irmãos não tomavam de jeito nenhum, mas quando chegava a minha vez fazia a festa. Abria a boca e quando minha mãe virava as costas tomava o vidro todo e o enchia com água para ela não desconfiar. Passava o dia todo bêbado e ia para a escola assim.

Henrique, como gosta de ser chamado sempre teve uma vida de muito luxo e conforto. Apesar de não saber ao certo o porquê entrou no mundo das drogas, lembra que foi apresentado à maconha, aos 12 anos de idade, por uma prima.

Desde então, as drogas passaram a fazer parte da vida dele e prejudicaram a adolescência e até os estudos.

— Estudei nas melhores escolas, mas fui expulso de todas. Parei na oitava série e fiz um supletivo para concluir o ensino médio. Comecei uma faculdade, mas nunca conclui porque no meio do caminho sempre ficavam as drogas e o tráfico.

Aos 16 anos, ganhou de presente um carro e um cartão de crédito. As festas “raves”, sempre regadas a muitas drogas, viagens de luxo para a Europa e o tráfico se intensificavam cada vez mais. Por meio das amizades, conheceu a merla, provou cocaína e passou a atuar com desenvoltura e intimidade nas principais bocas de fumo da capital federal.

Aos poucos, começou a viajar pelo menos uma vez ao mês para a Europa para comprar entorpecentes por preços menores e revendê-los no Brasil em grandes quantidades. O tráfico internacional virou uma rotina na vida do rapaz, que diz ter sido ‘sócio’ de grandes empresários, políticos e outros traficantes no País. Nesta época, faturava 30 mil euros por mês com a revenda de heroína, ecstasy e haxixe, drogas que até então não eram conhecidas pelos usuários brasileiros.

Durante anos driblou a fiscalização nos aeroportos e alfândegas porque escondia os entorpecentes em um compartimento secreto dentro de um parapente, um estilo de paraquedas, e conseguia escapar de todos os “flagrantes”.

No entanto, a polícia passou a estudar e monitorar as atitudes do rapaz e a tática e ele foi preso. Neste momento da entrevista ao R7, Henrique disse que “a ficha caiu” e o que ele mais temia tinha acabado de acontecer.

— Fui preso. Passei a vida toda fugindo da polícia e da prisão. Sempre fui um cara muito safo, mas depois que a casa caiu, me dei conta do que tinha acabado de acontecer. Durante anos fiquei paranoico, sem dormir e sem paz achando que estavam atrás de mim. Naquele momento, relaxei e tive o melhor sono da minha vida.

O ex-traficante, então, foi levado para uma prisão em Paris e cumpriu pena em regime fechado durante três anos. Como ocupação, passava o dia lendo, estudando e refletindo sobre a vida. Durante as próprias análises comportamentais, prometeu a si mesmo que quando saísse da cadeia “jamais voltaria” para o mundo das drogas.

A LIBERDADE

Depois de cumprir a pena em Paris, Henrique voltou ao Brasil e foi morar novamente na casa dos pais, em um bairro nobre de Brasília. Infeliz e envergonhado, não aguentou muito tempo e passou a fumar crack. Nesta época, tentou suicídio por três vezes.

— Foi um período muito difícil, mas foi quando conheci a minha atual esposa, a mulher que um dia iria ajudar a mudar minha vida.

Incentivado pela então namorada, tentou superar o vício diversas vezes, mas sem sucesso. Chegou a ser internado em várias clínicas, mas não conseguia ficar muito tempo.

— Eram lugares cheios de enfermeiros que tratavam os internos como bichos. A gente tomava injeção e medicações pesadíssimas para dormir o dia todo e ficar meio abestado.

19_55_57_936_fileA RECUPERAÇÃO

Depois de muito sofrimento, Henrique foi levado a um centro de reabilitação diferente, exatamente o mesmo que administra atualmente. Foi recebido por um grupo de psicólogos, terapeutas e profissionais capacitados que o ajudaram a perceber a dimensão do problema e como solucioná-lo.

— Não tinha enfermeiro e remédios como nas vezes passadas. As pessoas me ajudaram a moldar meu caráter e resgataram o que sempre esteve perdido em mim: o meu amor próprio. Durante o tratamento, comecei a trabalhar, a ajudar outras pessoas, assumi a coordenação e desde 2006 estou totalmente limpo.

O antigo dono com o tempo passou para ele a administração do centro, que hoje é uma ONG (Organização Não Governamental) batizada de “Salve a si”.

A psicóloga que o ajudou a superar o vício exerce a mesma função sob a administração dele e trabalha para fazer o mesmo com outros dependentes químicos. No local, existem 68 pacientes que passam o dia trabalhando, produzindo, estudando e se aperfeiçoando com terapias e acompanhamentos profissionais.

— Temos capacidade para 120 pessoas e convênio com o Governo Federal e com o GDF (Governo do Distrito Federal). Firmamos parceria com o Senac e aqui todos crescem juntos e se ajudam. É literalmente um trabalho em equipe, feito por pessoas que querem mudar de vida e reescrever a própria história. Estou limpo desde 2006, mudei de vida e sei como ajudar quem precisa. Dependência química é uma doença e o doente precisa ser tratado com respeito para readquirir a própria dignidade.

PACIENTE ESPECIAL

Um paciente especial está há 40 dias no centro de recuperação Salve a Si. O ex-morador de rua Adeílson Mota de Carvalho, de 37 anos, que ficou conhecido na capital federal após encontrar o estudante Felipe Dourado Paiva, de 22 anos, que ficou desaparecido durante 15 dias no início do mês de agosto, está conseguindo combater o vício.

Satisfeito com o resultado, ele alega que já percebe uma mudança radical no estilo de vida e na forma de pensar.

— Aqui é um paraíso. A gente é bem cuidado, aprende e cresce em todos os sentidos. Sei que quando sair, não vou mais voltar para as drogas. Quero recuperar minha família e reconquistar tudo o que perdi.

Carvalho foi “adotado” pela família do estudante e chegou a oferecer dinheiro, mas o ex-morador de rua preferiu, na ocasião, ser internado em uma clínica de recuperação para dependentes químicos.

Hoje, com a vida pessoal estável, casado e pai de família, Henrique administra a instituição e usa a própria história para motivar outros dependentes químicos a superarem o vício.

Ele disse que não é fácil, mas que se houver vontade e força de vontade, tudo é possível.

— Sei que destruí muitas vidas. Hoje, quero construir outras. Temos as ferramentas e ensinamos como usá-las. Se a pessoa precisar e quiser ajuda, estamos aptos.

SERVIÇOS

Site: www.salveasi.com.br Fone: + 55 (61) 9997-5010 ou 8216-3516

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